Divagações

Quando visito a aldeia natal, na Beira-Baixa, também não resisto a entrar na igreja. Há tempos, chovia e apeteceu-me fazer algo: ler Fernando Pessoa («Chuva Oblíqua») naquele espaço sagrado. Não aconteceu, mas juro que um dia ainda hei-de partilhar (gosto desta palavra facebookiana) a experiência.
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...
...
Não foi a primeira vez que se me deparou uma situação gira, na aldeia beirã. Sempre que alguém perde algo, recorre a determinada pessoa. Ela reza (três vezes) a «Oração de Santo António» e... as «coisas» aparecem! Desta vez, um fulano perdeu a carteira, enquanto colhia o mel. Voltas e mais voltas e... nada! Até que surgiu essa pessoa, rezou a oração e... a carteira apareceu!
Apesar de ser homem de pouca fé, não deixei de pedir que rezassem por mim, na esperança de recuperar muito do que ficou perdido pela longa estrada...
Oração de Santo António
Santo António se levantou
e seus sapatinhos de oiro calçou
Seu bordãozinho à mão direita tomou
Seu caminho caminhou
e o Senhor encontrou
E o Senhor lhe perguntou:
– Tu, António, pra onde vais?
– Eu consigo vou, Senhor...
– Tu comigo não irás... Tu na Terra ficarás. Quantas missas se disserem, tu, António, as ouvirás. Quantas coisas se perderem, tu, António, as acharás. E ao seu dono, António, as entregarás.