
O fogareiro
Estórias de um motorista de táxi de Lisboa
27.10.07

19.10.07
Orgulho ferido

Por exemplo, o que pensam de chegar a Portugal, num voo nocturno, e ter vontade de ir à casa-de-banho, à primeira delas para quem vem do espaço internacional? Eu digo-lhes: às onze da noite, o chão está imundo (escuso de dizer «de quê»), não há sabonete líquido nem toalhetes de papel, há um lago no meio, um mau cheiro que não vale a pena descrever, as portas estão sujas, os azulejos estão sujos. Está bem; sou português, conheço a Pátria, limito-me a protestar, penso em escrever uma carta à administração da ANA, ou da Groundforce, ou da TAP, já não sei. Mas um cidadão que apanha um voo em Paris, em Amesterdão, em Frankfurt, no Rio de Janeiro, em Nova Iorque, em Caracas – chega e vê isto. Não sei se merece, não sei se merecemos. Mas, diante disto, desta imagem de casa de horrores, suja, nojenta, peço que o aeroporto passe a ser considerado área prioritária do ministério dos Negócios Estrangeiros, do Turismo de Portugal, do ICEP, da Direcção-Geral de Saúde e da ASAE. Não podem promover-se o Allgarve e as belas imagens da publicidade que está colocada na imprensa estrangeira, e depois manter as casas-de-banho do aeroporto neste estado. Não pode manter-se o hall de chegadas como se fosse um cenário para filmes de pós-tragédia, onde se fuma nos locais proibidos, onde o lixo transborda dos cestos, para não falar dos táxis que (emboram tenham melhorado o seu serviço) continuam a receber mal. A receber mal quem nos visita, exactamente.
Não, não é provinciano, isto. É orgulho ferido. É ter pena que «a nossa casa» (a casa dos administradores do aeroporto de Lisboa) esteja suja, desleixada e tudo isso. O estado das casas-de-banho é um escândalo. Eu proponho que, à boa maneira americana ou alemã, os administradores dêem um passeio pelas casas-de-banho por volta das dez da noite e recebam os turistas, os visitantes, os passageiros. Que tomem nota e se envergonhem. Não deixem a vergonha toda para nós.
Francisco José Viegas («Origem das Espécies»)

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Évora, 1972. Sai a lista de mobilizados para a guerra colonial. Angola, Moçambique, Guiné... Cabe-me esta última na lotaria. Na altura, tinha a ideia de que ser mobilizado para a Guiné era como que um passaporte para a morte. E, em certa medida, era verdade. Eu, o Moreira e o «Pica» jantámos no Café Arcada. A seguir mandámos vir uma garrafa de uísque (guardo foto desse momento) e conversámos toda a noite sobre o nosso destino de futuros combatentes coloniais. O Moreira tinha já uma boa «bagagem» política e foi categórico: «Não vou para Moçambique!» E não foi! Zarpou para França, a «salto», onde uma irmã lhe deu guarida. O «Pica» rumou a Angola, onde viria a morrer. Por mim...
... Tinha alguma consciência política da situação do país, até pelo facto de trabalhar num meio (um jornal) onde abri os olhos para o Mundo. Vi textos cortados pela Censura; li alguns livros proibidos da época; ouvi as canções do José Afonso; escutei conversas de antifascistas que se «soltavam» nas tertúlias do Bairro Alto, na altura poiso de jornalistas e escritores. E fiquei a pensar na frase do Moreira («Não vou para Moçambique!»)... Também quis dar o salto. Contactei pessoa que vivia em Paris e... fiquei a aguardar. Até hoje!
Como eu, milhares de jovens não «vestiram a camisola» naquela guerra. Estávamos lá e não estávamos... Num beco sem saída, num Portugal «sucessivamente adiado» e sem um deus qualquer que nos valesse...
17.10.07

10.10.07

Ora vamos lá a ver: hoje, dia 10 de Outubro, cada euro custa (câmbio oficial) 2,5551 reais! Dá que pensar! E eles pensam...
Também o dólar está muito inferior à moeda europeia (1,4146). Há dias, um cliente deu-me dez dólares para pagar uma corrida de oito euros e tal. Fui cambiar a notinha e... fiquei a perder.
Também o dólar está muito inferior à moeda europeia (1,4146). Há dias, um cliente deu-me dez dólares para pagar uma corrida de oito euros e tal. Fui cambiar a notinha e... fiquei a perder.
Essa palavra «gravata»

Quanto ao boné, não me esqueço de que em 1966 entrei no Cinema Monumental pela «porta do cavalo», com um boné emprestado pelo João porteiro (que era também chófer), e lá vi o filme «Doutor Zhivago» de graça. Ainda hoje me lembro do tema de Lara e dos pés dos cavalos da polícia do czar contra as caixas, os tambores e as tarolas da banda que acompanhava a manifestação pacífica.
Mas vamos à palavra gravata. No reinado de Luís XIV, o seu Real Regimento Croata ressuscitou o antigo «cachecol» romano que se chamava «focale». Usavam o «focale», em Roma, os doentes e os recitadores e, de um modo geral, os cidadãos de saúde frágil. O Rei Sol gostou da prenda que veio da Croácia e a palavra «croate» corrompeu-se mais tarde em «cravate». Entre nós ficou gravata e em Espanha corbata.
Pela minha parte, uso-a apenas em último caso: nos casamentos só durante a cerimónia, para não parecer mal. Findo o cerimonial do enlace, guardo-a de imediato no bolso e aí permanece até ao próximo.
José do Carmo Francisco
5.10.07
